Maré de palavras não ditas
— Eu tava com tanta saudade disso! — diz ela, enterrando os pés na areia com alegria.
Ele observa. Vê-la brincando na areia o lembra da inocência de uma criança.
— Você gosta mesmo da praia. Já te falei, você devia se mudar pra cá.
— Sabe que eu adoraria viver perto do mar… mas ainda não dá. Quem sabe um dia.
Ele imagina esse dia, curioso sobre como seria vê-la com frequência.
O céu começa a se tingir de laranja, refletindo no mar como se alguém tivesse derramado um balde de tinta. Ao longe, crianças correm atrás de uma bola, suas vozes se perdendo no barulho das ondas.
— Você já ouviu falar no Deus de Spinoza?
Ela tira o olhar dos pés e encara ele.
— Quem?
Ele, por sua vez, desvia o olhar para o mar.
— Spinoza. Um filósofo da Idade Moderna. Ele acreditava que Deus é a própria natureza. Quando olho pra uma paisagem tão linda como essa, acho que ele tinha razão. — O olhar dele fica preso no horizonte.
Ela vê um cachorro fazendo cocô na areia.
— Não querendo estragar o momento, mas… isso inclui o cocô do cachorro? — aponta.
Eles caem na risada.
— Com certeza — diz ele, em tom sarcástico. — Mas, além dessa paisagem, existem outras coisas belas que quando eu olho, me fazem acreditar que ele estava certo. Apenas uma força divina para criar tanta beleza.
— Como o quê?
Ele demora a responder, como se estivesse escolhendo as palavras.
— Ah… são coisas difíceis de explicar. — Ele dá de ombros, mas mantém o olhar nela. — Nem sempre são coisas que podemos ver, mas sentir. Tipo quando você tem a sensação que tudo parece se encaixar. Como se toda a sua vida tivesse culminado naquele exato momento. Você já se sentiu assim antes?
Ela fica em silêncio, pensativa.
E ele por dentro pensa na resposta que não disse por medo de parecer muito clichê.
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